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“A Máquina” que movimenta o Teatro - sentimentos sobre uma das peças mais gostosas de assistir

  • No Teatro Curitiba
  • 11 de abr.
  • 4 min de leitura

Por Gabi Coutinho


Existe uma máquina que movimenta o teatro: não se vê suas engrenagens de imediato, não há ruído metálico nem anúncio de quando vá começar a funcionar. Ela inicia silenciosa, quase imperceptível, muito antes das luzes encontrarem seus lugares e o público ajustar o corpo no espaço. 

Aos poucos, algo entra em rotação na cena e fora dela. Entre olhares que se encaixam e gestos que encontram o outro, um ritmo se estabelece e então percebemos: a máquina já está em movimento.


Nessa, em específico, fica clara uma sincronicidade entre os atores que não parece ensaiada, mas inevitável. Como se cada palavra fosse um “gancho” da engrenagem que gira no tempo exato, sustentando o fluxo sem esforço aparente.

A plateia passa boa parte da apresentação sorrindo — não necessariamente por leveza, mas por reconhecimento. Um sorriso que convive com uma tensão interna, uma atenção plena voltada para o mecanismo que se constrói diante dos olhos.

Existe ali uma delicadeza que exige concentração, como observar algo frágil funcionando perfeitamente.


É tanta coisa acontecendo que somos guiados pelo fluxo e quase hipnotizados por aquele equilíbrio perfeito entre o que parece automação mas é claramente humano, acima de tudo.


É curioso perceber que essa máquina não é movida por grandes explosões dramáticas, e talvez não siga nenhum manual de jornada do herói ou algo do tipo. Enquanto tantas narrativas apostam na densidade, nas reviravoltas e no suspense, aqui o motor parece ser a simplicidade.

Uma história aparentemente pequena, mas contada com precisão. Uma narrativa que não precisa de excessos porque é alimentada por amor e verdade, que acontece lindamente sem a necessidade de complicar. 


A técnica dos atores é impecável, a maneira como funcionam juntos uma verdadeira catarse. Mas o que realmente aciona o movimento e emociona é o carisma. Há algo que convida o público a entrar, não apenas a assistir. A vontade de viver aquela história com eles surge naturalmente, como se cada gesto fosse também um convite. E talvez seja por isso que a plateia se percebe em estado de atenção plena: porque essa mesma atenção existe no palco.

Não há dispersão. Não há sobra. Há presença - e presença é combustível.


Existe uma máquina que movimenta o teatro, e ela também depende do espaço. A Ópera de Arame já inicia o convite para uma experiência especial. A disposição do público no próprio palco aproxima, envolve, cria cumplicidade. É como se todos estivéssemos dentro do mecanismo, participando do funcionamento.

Entretanto, isso também nos mostra algumas pequenas falhas que podem comprometer as peças de alguma forma: o desconforto das arquibancadas, o corpo buscando posição, a inquietude física que, por momentos, tira o foco e range discretamente na engrenagem sensorial.


Enquanto isso, porém, a máquina continua. Porque o que a move não é a perfeição absoluta, e sim a energia coletiva que se estabelece.

O interesse em não perder nenhum detalhe, o sorriso atento, o silêncio compartilhado, o ritmo comum e a expectativa pelo que vem depois - sem distanciamento do agora.

Quando a história é contada com o coração e com conexão, a simplicidade se transforma em potência. E aquilo que parecia pequeno passa a girar com força inesperada.


No fim, percebe-se que não eram apenas os atores que se moviam. Nem apenas a história. Nem apenas o espaço.

Era algo maior, invisível, constante, que ultrapassa o “aqui e agora”.

Um mecanismo alimentado por afeto e a sensação de ter vivido algo que nunca mais se repetirá da mesma maneira - mas que a gente torce para que encontre patrocínios que possibilitem-na de continuar existindo e circulando.


O mundo precisa disso. A Máquina vai muito além do entretenimento por si só.


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Gabi Coutinho assistiu “A Máquina”, na Ópera de Arame, no dia 05 de abril de 2026, no 34° Festival de Curitiba. A peça entrou para o seu ranking de favoritas, e segue reverberando como impulso para aprender e fazer arte como força motriz.



Sinopse

A Máquina” convida o espectador a adentrar a fictícia cidade de Nordestina, um lugar comum, sem recursos, como tantas cidades do interior do Brasil, onde o jovem Antônio decide mudar seu destino e o do mundo para impedir a partida de sua amada Karina. Para isso, promete o impossível: Viajar no tempo e trazer o mundo até sua cidade. Com lirismo, humor e crítica social, o espetáculo fala sobre amor, êxodo, esperança e a potência transformadora

do ato de acreditar.


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Ficha técnica

Baseado no livro de Adriana Falcão; Adaptação e Direção: João Falcão; Codireção: Gustavo Falcão; Elenco: Agnes Brichta, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto (Coletivo Ocutá) ; Assistência de Direção: Duda Martins e Jofrancis; Preparação Corporal: Gustavo Falcão; Preparação em Danças Populares: Alisson Lima; Música Original: DJ Dolores; Trilha Sonora: Ricco Viana e João Falcão; Direção Musical: Ricco Viana; Cenografia: João Falcão, Denis Nascimento e Vanessa Poitena; Assistência de Cenografia: Renata Garcia; Figurino: Chris Garrido; Assistência de Figurino: Maria Helena Alcântara e Valquíria Reducino; Visagismo: Louise Helène; Hair Style: Sttefone; Desenho de Luz: Cesar de Ramires; Operação de Luz: Daniel Galván; Desenho e Operação de Som: Thiago Schin; Direção de Palco: Luis Felipe Machado; Cenotécnico: Dalton Nunes; Fotos: Flora Negri e Leonardo Bonato; Mídias Sociais: Alexandre Ammano e Daniel Bianchi; Assistente de Produção: Daniel Bianchi e Leonardo Bonato; Direção de Produção: Clayton Marques; Idealização: Clayton Marques, Coletivo Ocutá e João Falcão; Produção e Realização: MaquinaMaquina e Jacaracica Produções; Apoio Cultural: Icatu Seguros.


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