Espetáculo “Orúkọ” participa do Festival de Curitiba e lança livro a partir da peça, refletindo sobre ancestralidade, memória e apagamento histórico das narrativas negras
- No Teatro Curitiba
- 6 de abr.
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“Orúkọ nasce da necessidade de me reencontrar, me refazer e me reconectar com meus ancestrais”, afirma Hilda Maretta, atriz e idealizadora do espetáculo “Orúkọ”. A palavra, de origem iorubá, significa “nome” e, nas tradições de matriz africana, está associada a processos simbólicos de reconhecimento, pertencimento e renascimento espiritual. Refletindo sobre a ancestralidade diante do apagamento histórico das narrativas negras no Brasil, o espetáculo chega agora ao Sul do país e integra a Mostra Petrobras de Novos Bifes, dentro da programação do Festival de Curitiba, com apresentações na quarta-feira (8), às 17h e às 20h. A participação marca também o lançamento do livro da dramaturgia.
O espetáculo traz a problemática em torno dos nomes de pessoas negras no Brasil, já que, em 1890, Ruy Barbosa de Oliveira, então ministro da Fazenda, mandou queimar todos os documentos ligados ao período da escravidão. A destruição desses arquivos impediu não apenas a responsabilização legal pelos crimes cometidos, como também apagou os registros que poderiam conectar os ex-escravizados às suas origens, famílias e nomes. “Tomar consciência de quem somos nos faz questionar as imposições feitas, o silenciamento sofrido, o apagamento de nossos nomes e de nossa cultura”, ressalta Hilda.
“Orúkọ” já se apresentou no Rio de Janeiro e em Salvador. Agora, chega a Curitiba, ampliando o diálogo com diferentes públicos e territórios e reforçando o caráter coletivo das questões levantadas pela obra. “O nome, a identidade e a busca por pertencimento atravessam diferentes contextos, e ver como isso reverbera em lugares tão diferentes reforça o quão viva a obra é. Apresentar em outros estados amplia o diálogo, cria novas camadas de sentido e reafirma que essas histórias não são isoladas. Elas se reconhecem, se conectam e continuam sendo chamadas em muitos lugares.”
O ponto de partida do espetáculo é a história da aparição de Nossa Senhora do Rosário, muito presente nos ternos de Congada. A peça costura relatos e narrativas cotidianas, sempre levantando a mesma questão: “Qual a importância do nome das coisas?”. Para Hilda, a reflexão vai além da nomeação em si — trata-se de compreender o significado que atribuímos a ele. “Por que alguns nomes merecem ser lembrados e outros não? Quem faz essa distinção? Estes são questionamentos que me fizeram refletir sobre o que realmente é importante”, conta. Neta de congadeiros, Hilda tem o mesmo nome da avó. Foi ao perceber o peso simbólico desse nome herdado que ela passou a investigar o passado de sua família.
Com direção de Tatiana Henrique, pesquisadora de oralidades africanas há mais de 20 anos, a obra entrelaça comédia, drama, música e contação de histórias. “Espero que o público perceba que todas as histórias são importantes. Que o apagamento de diversas culturas acontecem todos os dias de forma sutil dentro de nossa sociedade. Apagar uma cultura é sumir com a identidade de um povo, é retirar dele o direito de conhecer e celebrar suas origens, seus nomes, sua existência. Que possamos refletir sobre a importância de cada encontro, de cada nascimento e de cada renascimento em nossas vidas. Que cada um de nós tenha o direito de existir como é, e celebrar seu orúkọ”, Hilda destaca.
SINOPSE
Tomando como ponto de partida a história da aparição de Nossa Senhora do Rosário, famosa tradição oral dos ternos de Congada dos quais a atriz descende, o espetáculo costura relatos e narrativas cotidianas, sempre levantando a mesma questão: qual a importância do nome das coisas?
LANÇAMENTO DO LIVRO
Junto à apresentação do espetáculo no festival, o grupo também realiza o lançamento do livro da dramaturgia, ampliando o alcance da obra para além da experiência cênica.
“Registrar “Orúkọ” no formato impresso é, antes de tudo, um gesto de enfrentamento ao próprio apagamento que a obra discute. Se estamos falando de uma história marcada pela tentativa de eliminar nomes, memórias e origens, publicar esse texto é garantir permanência”, afirma Hilda.
O processo de adaptação da dramaturgia da cena para a publicação foi pensado como uma tradução entre linguagens. Enquanto o teatro se constrói na presença e no encontro coletivo, o livro se apresenta como uma experiência fixa, individual e silenciosa. “A cena tem elementos que não cabem completamente na página, como o cheiro do café ou a presença do público. O desafio foi sugerir essas atmosferas no texto, mantendo a essência da obra. O livro não busca reproduzir a cena, mas garantir que aquilo que o espetáculo convoca continue existindo para além do palco”, explica Hilda.
Para o dramaturgo Mateus Amorim, o processo de transformar a obra cênica em publicação exigiu um exercício de tradução entre linguagens, buscando transpor para a escrita as nuances e presenças construídas em cena. “Escrever sempre é desafiador. Mesmo sendo a dramaturgia do espetáculo em livro, o que fizemos foi traduzir as linguagens do teatro para o livro. Um dos maiores trabalhos foi encontrar as palavras certas para indicar o que a Hilda, muitas vezes, diz com um olhar ou um gesto. Ainda assim, foi prazeroso revisitar esse texto de forma aprofundada e reafirmar que acreditamos nas histórias que contamos. Seja em livro ou no teatro, ‘Orúkọ’ é um projeto que não só questiona os nomes no Brasil, mas celebra nossas identidades através daquilo que nos une: a palavra.”


