A mistura de cores num pacote de balas de goma - por Gabi Coutinho
- No Teatro Curitiba
- há 1 dia
- 4 min de leitura
Esses dias fui numa distribuidora de doces e escolhi um pacotinho de balas de goma daqueles que parecem ter mais da vermelha, que quase unanimemente é a favorita.
Uma admiração que não é de hoje, mas que cada vez mais surpreende, sabe?
E não que eu não goste das outras cores mas, especialmente quando colocadas junto às vermelhas, a sensação é que existe algo diferente entre elas.
Abri o pacote e comecei por uma daquelas, que tinha exatamente o sabor que eu esperava. Talvez até melhor. Daquelas que a gente aprecia, tentando prolongar o gosto porque sabe que, uma hora, acaba.
Enquanto eu mastigava, tive a sensação de que havia muito mais ali do que essa “responsabilidade” que ela carregava.
Vi já de início uma história inteira, de um amor que continuava existindo depois do fim. Uma ausência que, de tão presente, ocupava e preenchia espaço. Uma imensidão de uma experiência sensorial me fazendo lembrar porque certas coisas definitivamente me encantam.
Quando eu digo experiência sensorial, me recordo ainda da música que tocava. Uma sonoridade que fazia meu doce pacote ganhar outra dimensão, não apenas como um acompanhamento mas como uma melodia narrativa que me atingia com ainda mais profundidade.
Degustar tudo aquilo era quase como estar em uma viagem, exceto pelo fato de que eu não queria estar em outro lugar senão ali.
Eu, sentada feito criança diante de algo tão grandioso que faz esquecer do mundo por alguns instantes. Com um sorriso sincero diante de coisas que existiam separadamente mas tinham encontrado uma maneira bonita de se completar.
Uma sensação de se estar vivo mesmo diante da dor, do passado, da saudade.
Até que uma bala verde toca meu céu da boca e quebra aquela satisfação de um jeito difícil de explicar.
Não que eu não goste das balas verdes, entende?
Mas elas me causam um estranhamento como se interrompessem uma satisfação que aos poucos tomava conta de mim.
Depois, uma laranja. Que calmamente eu experimentava, com atenção, tentando descobrir o que faziam juntas.
Separadas, elas tinham coisas interessantes. Algumas eram mais ácidas, outras surpreendiam, outras me causavam angústia, algumas chegavam a fazer rir por fazer cócegas no céu da boca. Mas havia alguma sensação incômoda naquele pacote, de repente causada pela propaganda que acabou por confundir ainda mais a minha mente.
Mais uma vez, não que aquilo que me foi entregue fosse algo ruim… mas quando eu espero bala de goma, mesmo que me entreguem chocolate isso pode ser frustrante. Dá pra entender?
Claro que muito disso pode vir de um equívoco meu, como consumidora, que de antemão construo na minha cabeça o sabor que vou encontrar… mas que desperta esse estranhamento, desperta. Não dá pra lutar contra isso. A expectativa é uma coisa engraçada - para não dizer perigosamente passível de frustração.
Tudo isso pra dizer que diante de balas de goma vermelhas grandiosas, literalmente despidas de qualquer tabu, eu continuo apaixonada por esses doces. Fico ansiosa para abocanhar o próximo.
Só que eu queria mesmo experimentar embalagens de cada uma delas separadas, na esperança de que assim os sabores individuais me agradassem mais.
Eu queria gostar do pacote inteiro. De verdade. Mas a confissão de que eu só queria encontrar a vermelha de novo toma conta de mim. Mesmo sabendo que poder soar injusto esperar que uma única bala sustente o sabor de um pacote inteiro.
No fim, fechei o saquinho e fiquei olhando para ele.
Não joguei fora, porém não terminei. Guardei, e fui aos poucos tentando digerir.
Talvez, outro dia, eu abra de novo e descubra um sabor que não consegui sentir daquela vez. Talvez, eu compre outro pacote.
Acho que o momento em que me encontro e também a tal da expectativa possam mudar bastante o gosto que um doce tem.
O que eu recomendo é que você também pegue seu pacotinho e entenda por si só o que cada cor de bala de goma te desperta.
Abra a mente, se deixe tocar e lembre-se que cada experiência é única.
Tenho certeza que se todos notassem tanta diferença entre as balas elas não viriam misturadas.
E essa percepção individual é o que faz a arte ser gostosa demais.
-A arte?, perguntou a menina confusa.
-Sim, a arte. O que fica quando tudo desmorona. Isso não é sobre balas de goma.
-Exceto se você quiser que seja.
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Em “A mistura de cores num pacote de balas de goma”, Gabi Coutinho escreve sobre “Balas de Goma – Numa Terra que Desmorona” em uma metáfora sobre as diferentes formas de uma obra encontrar - ou não - quem está diante dela.
Uma reflexão em torno de estranhamento, contrastes e expectativas, acerca do que acontece quando diferentes sabores são colocados dentro de um mesmo pacote.
A montagem é uma parceria entre Pé no Palco, Sim Companhia de Teatro e Palco Escola e marca os 31 anos do Pé no Palco com uma criação que olha para a própria experiência artística para falar sobre permanência, fragilidade e o desejo de continuar fazendo teatro.
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Serviço
Espetáculo: "Balas de Goma – numa terra que desmorona"
19 a 30 de agosto de 2026
Horários: Terça a sábado, às 20h; domingos, às 19h
Local: Teatro Mini Guaíra (Auditório Glauco Flores de Sá Brito)
Ingressos: Gratuitos
Classificação etária: 16 anos
Instagram: @penopalco / @simcompanhiadeteatro
Ficha técnica
Direção: Vanessa Corina
Organização da dramaturgia: Vanessa Corina, a partir de textos do elenco
Elenco: Fátima Ortiz, Pedro Bonacin e ErtaAle
Músicos/atores: Noe Carvalho e Leon Adan
Intérprete de Libras: Nathan Sales
Cenário e Figurino: Gui Almeida
Preparação Corporal: Juliana Adur
Iluminação: Beto Bruel e Marcio Junior
Designer Gráfico: Aron Albino
Produção de Vídeos: Eduardo Soltoski, Yuri Del Pino e Andaluzita Filmes
Assistente de Produção: Flora Vieira
Direção de Produção: Giselle Lima


