
Desculpe… usar esse espaço para algo tão pessoal - por Gabi Coutinho
- No Teatro Curitiba
- 9 de ago.
- 5 min de leitura
O ano era 2013 e meu mundo estava virado de ponta-cabeça. Em poucos meses meu pai, que também era meu melhor amigo e, sem dúvida, um dos caras mais cheios de vida que eu conheci, foi diagnosticado com um câncer no pâncreas que, quando descobrimos, já estava em metástase.
Eu tinha 22 anos e minha família tentou me poupar ao máximo, por isso algumas coisas eu não sei exatamente como aconteceram. No entanto tem outras que eu lembro como se fosse ontem - o que é muito curioso porque esses acontecimentos que permanecem comigo são tão inteiros que a potência da presença chega a falar mais alto que a própria saudade.
Foram alguns meses muito difíceis vendo o homem que eu mais amava e que mais amava a vida atravessar aquele processo. Em pouco tempo, descobrimos que a própria quimioterapia era apenas um adiamento de algo que parecia inevitável. E era louco pensar que diante de um atestado tão contrário ao que chamamos de vida, viver ainda parecia a melhor opção.
Meu pai sabia manifestar essa loucura como ninguém. Mesmo diante de uma bolsa de ileostomia, com cerca de 50kg a menos, já numa cadeira de rodas porque não tinha forças para ficar de pé, decidiu fazer uma festa. Queria reunir todas as pessoas queridas possíveis. Família, amigos, enfermeiros e, se dependesse dele, qualquer pessoa que cruzasse seu caminho com um sorriso e o coração aberto.
Ele tinha talento e paixão por reuniões. Vejo as fotos daquele dia e ele sempre sorrindo, cantando alguma música, batendo colheres ou tentando assobiar, falando alguma coisa com notável empolgação. Cercado de gente. Vivendo.
Existem muitas coisas daquele período que ainda me surgem na memória. Eu estava em Manaus, do outro lado do país, e senti quando meu pai iria para o hospital pela primeira vez. Foi quando tive minha primeira crise de pânico sem fazer ideia do que estava acontecendo. Eu senti fisicamente e mentalmente quando dei meu último beijo nele, na cama do hospital já sedado há algum tempo, e disse “eu te amo” sabendo que era uma despedida. Eu senti o desespero quando finalmente recebi a notícia da partida, descobrindo que por mais que a gente sinta ou até saiba, nunca estamos preparados para perder alguém. Mas, diante de tudo isso, eu também senti - e ainda sinto - aquela alegria de viver vivíssima dentro de mim.
Acho que essa é a maior herança que meu pai me deixou. Porque no meio de toda a dor e de todo o vazio, que eu sinto diariamente, a potência daquela festa, daquele homem que escolheu reunir pessoas quando o corpo já não dava conta, continua sendo maior.
O fato é que, por mais positiva que eu tente ser, o câncer também atravessou outras pessoas que eu amava muito e sequer pensar em “fazer graça” diante disso sempre me pareceu algo forçado. Acho que por isso, quando ouvi falar de uma peça sobre câncer com a proposta de fazer rir, minha primeira reação tenha sido de aversão. Eu tinha certeza de que não gostaria. Tinha medo de que a peça “me obrigasse” a tratar com naturalidade algo que, para mim, carrega tanta dor. Medo de me sentir culpada por sofrer, como se o humor pudesse diminuir aquilo que foi vivido.
Relutei em ser plateia até que, numa escolha que hoje me parece muito ousada, fui assistir “Desculpe…” justamente antes do Dia dos Pais. Eu tinha acabado de participar de um projeto emocionante numa escolinha, acompanhando crianças e suas famílias em uma celebração para a data. Foram dias de muita realização e felicidade. No domingo, eu iria para um daqueles almoços em que a gente fala sobre lembranças com um sorriso no rosto. Mas algum lugar dentro de mim guardava muitas lágrimas que precisavam sair.
E então eu percebi que estar na plateia de Desculpe… naquele momento foi uma das decisões mais assertivas que eu poderia ter tomado. Eu chorei muito. Muito. Por quase quarenta minutos depois da peça, dentro do carro, eu chorei.
Mas era um choro bonito. Um choro que precisava sair e que parecia carregar não só a falta mas também tudo aquilo que às vezes fica soterrado quando a gente aprende a seguir vivendo.
Fui achando que “Desculpe…” me obrigaria a rir diante da dor e saí entendendo que a sensibilidade pode ser muito maior que qualquer expectativa sobre como uma história dessas deve ser contada. Eu tenho, sim, questões com algumas piadas e comentários que soaram desnecessários. Acho que existem momentos em que algumas escolhas sobram e acabam forçando a barra diante de uma mensagem tão bonita. Mas isso não diminui o que a peça provocou em mim.
Entre lágrimas e sorrisos, eu reencontrei meu pai e o sentimento daquela festa. Reencontrei a ideia de que, mesmo quando a vida parece dizer o contrário, existe alguma coisa que pulsa com força. Uma memória que “Desculpe…” me devolveu.
Foi emocionante ver no palco artistas tão incríveis que atravessaram o câncer ou transformaram suas dores, em geral, em histórias para contar. Ver a alegria não como uma negação da doença e das dificuldades da vida, mas como algo que pode coexistir com elas. Assim como foi mágico, mais uma vez, perceber que Maurício Vogue continua vibrando e presente através dessa mensagem também.
A presença é tão forte que em alguns momentos a gente chega a esquecer que ele não está mais aqui fisicamente. Eu mesma esqueço que, diretamente, eu nunca o conheci. Porque conheci aos poucos, através das pessoas e da arte, a maneira bonita como ele ocupava os espaços por onde passava.
Assim como o meu pai.
Eu penso em como muitas pessoas que hoje convivem comigo, muitos dos meus amigos mais próximos inclusive, que chegaram nos últimos anos, ouvem falar muito pouco sobre isso. Sobre ele. Mas percebo que por mais que eu não verbalize e não fale sobre ele de maneira literal, eu sinto que elas podem ter um contato muito próximo com tudo isso, como se tivessem presenciado momentos dessa história toda.
No meu jeito de olhar para o mundo, na minha vontade de conectar pessoas, na minha insistência em ver beleza em cada detalhe, na forma como eu me emociono com uma plateia cheia. Na alegria que, mesmo depois de tudo, continua sendo uma escolha possível pra gente continuar vivendo.
Eu vi tudo isso naquela peça e percebi o quanto precisava dela. Pensei que seria melhor não ter passado pela negação e pelo receio inicial, mas vi que precisava daquilo também.
Sinto que vi “Desculpe…” no momento certo, também porque amei encontrá-la no Espaço Excêntrico. Acho que a peça cresce muito ali. A iluminação é linda, os desenhos de cena são muito precisos e existe uma intimidade naquele espaço que pra mim potencializa ainda mais esse encontro.
Um encontro avassalador que me lembrou que o riso não é uma defesa pra dor, até porque a gente não precisa se defender dela. Só precisa encontrar um lugar seguro para deixá-la sair.

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SOBRE “DESCULPE…”
Um drama cômico teatral apresenta com humor a vida de quem enfrenta longos tratamentos de quimioterapia contra o câncer. Essa é a temática de “Desculpe…”, espetáculo dirigido por Mauro Zanatta, com assistência de Carmen Jorge, que aborda com delicadeza um assunto onde a dor, geralmente, é soberana.
Com apresentações gratuitas no Teatro José Maria Santos de 23 de julho a 02 de agosto, e no Espaço Excêntrico Mauro Zanatta, de 06 a 16 de agosto, a peça reúne Fagner Zadra, Maurício Vogue (in memoriam) e Rafael Alípio que passaram pela experiência da doença. A obra também conta com a participação da atriz Michele Bittencourt, do ator Rhenan Queiroz, da direção musical de Sergio Justen e iluminação de Lucas Amado. Desculpe… é um drama cômico, um exercício de resistência que alterna humor e emoções profundas, construindo uma ponte entre desespero e possibilidades.


