
A peça que eu não queria ter visto - e isso é tudo o que eu consigo dizer
- No Teatro Curitiba
- 8 de abr.
- 3 min de leitura
Por Gabi Coutinho
Essa talvez ainda seja uma crítica num formato literário, mas definitivamente não será um conto leve e bonito como venho tentando fazer. Na verdade, pensei muitas vezes se iria escrever sobre isso e decidi trazer à tona para ao menos transformar minha dor em reflexão.
Dizem que toda experiência é válida, porém essa, eu insisto, eu preferia não ter vivido.
Ontem eu relembrei e vivi na pele a potência do teatro — mas não como gosto de ver e sentir. Me senti não atravessada, mas nocauteada por uma comunicação falha de uma peça que me surpreendeu muito, negativamente.
Atrás das Paredes, da Cia Plágio de Teatro, apresentada na Caixa Cultural dentro do 34º Festival de Curitiba, me escancarou uma violência para a qual eu não estava preparada. Não digo isso falando daquele incômodo necessário que a arte provoca, que faz refletir e reverbera. Digo isso a partir do lugar de alguém que saiu da peça com crises de pânico, gatilhos físicos e psicológicos intensos e um questionamento difícil de silenciar: por que eu não levantei e fui embora antes?
É importantíssimo dizer que a questão aqui não é sobre o tema do abuso, da violência doméstica e da pedofilia — que são, sim, urgências no nosso cenário. Também não é sobre a qualidade técnica da peça, embora eu realmente não tenha gostado e tenha achado ela vaga.
O ponto central é a falta de responsabilidade ao lidar com tudo isso em cena, somada a uma comunicação extremamente superficial, em que o público é atingido de maneira inesperada e, para muitos, potencialmente devastadora.
A sinopse e as informações de divulgação não indicam a profundidade e a brutalidade do que é apresentado. A impressão transmitida é a de uma comédia dramática com abordagem leve sobre relações familiares e violência doméstica, quando, na prática, o que se vê é uma sucessão de situações explícitas e emocionalmente violentas, sem qualquer aviso claro. Não havia preparação, não havia mediação, não havia alerta. Apenas o impacto que, diante do choque, desconectava completamente da narrativa sem resolução clara.
Eu cresci em um ambiente familiar saudável, nunca passei tão diretamente por situações como as expostas. Ainda assim, saí de lá com enjoo, dores no corpo, uma tensão constante e a ansiedade tomando conta. Não dormi à noite. Senti medo, desespero. O pensamento de que alguém na plateia poderia ter isso potencializado por carregar um trauma real me dominou.
Imaginar uma menina, uma criança de 14 anos (essa inacreditavelmente era a classificação indicativa) assistindo aquilo me destruiu.
Além disso eu, com todo o meu amor pelo teatro, movida pelo baque me questionei: será que eu quero correr esse risco de novo? Tanto trabalho para formar plateias, pra ver mais gente sendo transformada pelo teatro, e me vi ali, com medo de assistir novas peças e passar por isso mais uma vez. Se isso não fosse parte tão essencial da minha vida, não sei quando voltaria. Não sei se voltaria.
As coisas tomaram uma proporção sem tamanho. Estou longe de conseguir me recuperar totalmente, então nada que eu escreva vai dar conta da dimensão do peso que essa experiência teve para mim.
O que me leva a pensar numa responsabilidade que não é apenas da companhia, mas também da curadoria.
Quando uma obra com esse nível de violência ocupa a mostra principal de um festival do porte do Festival de Curitiba, em um espaço como a Caixa Cultural, existe uma legitimação institucional. Não é sobre procurar um culpado, mas é impossível não mencionar que existe uma chancela que comunica ao público que aquela experiência é segura dentro de determinados parâmetros. Quando essa mediação não acontece, o espectador fica desamparado. Não se trata de censura, mas de responsabilidade. Escolher também é assumir consequências.
Dito isso, espero que minha dor vá embora aos poucos e que eu consiga deixar essa experiência para trás.
Mas que isso não aconteça com quem deveria refletir diariamente sobre essas questões.
Que curadores de festivais estejam mais atentos ao que colocam em eventos dessa proporção. Que as companhias repensem o que e como abordar em seus trabalhos, tendo o mínimo de cuidado com seus espectadores e, mais ainda, com as vítimas das violências que escolhem representar. Que a comunicação cultural entenda que alertas de gatilho não são excesso de zelo, mas ferramenta de cuidado. E que classificação indicativa e avisos claros sobre gatilhos sensíveis deixem de ser opcionais para se tornarem parte essencial da experiência.
Pelo bem e pelo mal, o teatro é avassalador. E isso não pode ser banalizado.


