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Aos Companheiros de Estrada: uma travessia emocional de parada obrigatória

  • No Teatro Curitiba
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Por Gabi Coutinho


Tem caminhos que a gente percorre no automático. A rua de sempre, o ônibus de sempre, um mesmo pensamento repetido enquanto o mundo acontece sem pedir licença. E talvez o mais perigoso dos trajetos seja justamente esse: atravessar paisagens sem enxergar as histórias que moram nelas.


Foi nisso que pensei assistindo Aos Companheiros de Estrada, enquanto a peça me arrancava aos poucos dessa mania contemporânea de viver com pressa e passar pelas coisas sem habitá-las.


Em algum momento, me senti entrando num desses universos empoeirados e mágicos que parecem saídos das páginas de Grande Sertão: Veredas.

Fui guiada por um “caminho que nunca é apenas caminho”, em uma travessia que aparece menos como geografia mas, principalmente, como estado de espírito.


E há algo muito bonito na maneira como o espetáculo entende o corpo como estrada também.

Os pés descalços da atriz dizem tanto quanto qualquer fala, acabando por tornar-se personagens centrais e indispensáveis. São pés que claramente carregam cansaço, memória, origem; sentindo a temperatura do chão e conhecendo veredas antigas antes mesmo que a personagem as nomeie.

Fiquei olhando para eles como quem olha para um mapa, encontrando delicadezas em lugares tão importantes quanto a palavra - porém sem esquecer de manter a escuta ativa.


O cenário não tenta impressionar pelo excesso. A ambientação é generosa, sem querer disputar atenção com a narrativa. E é a sutileza que justamente torna torna tudo tão potente. Poucos elementos bastam para criar sensação de distância, de calor, de jornada, de memória. Como numa lembrança antiga, a peça entende que nem tudo precisa estar completamente desenhado para existir emocionalmente.


O figurino, embora um pouco mais “literal”, segue esse mesmo caminho de beleza sensível. Embora sejam lindos por si só, o ponto alto é o sentimento de roupas que apresentam vidas inteiras costuradas em tecido. E isso me encantou profundamente.

Inclusive, há algo especialmente bonito no tradutor de Libras integrar esse universo de maneira tão orgânica, vestindo um figurino em sintonia com os atores e tornando-se também parte daquela estrada. Não alguém à margem da cena, mas alguém que em sua plenitude caminhava junto com ela.



O que vemos em toda a construção são sugestões de verdade, que conduzem a um espaço que o espectador pode completar com suas próprias lembranças, saudades e paisagens internas.

Uma sensibilidade que me pegou desprevenida, de novo na sutileza, me deixando emocionada sem que eu soubesse exatamente quando o atravessamento aconteceu.

Lacrimejei discretamente não por uma grande cena construída para arrancar lágrimas, mas por algo mais difícil de explicar, muito mais profundo, de um lugar que talvez só eu mesma seja capaz de acessar. Como quando uma música antiga toca numa venda de beira de estrada e, de repente, você sente saudade de uma coisa que nem sabia que tinha perdido.


Dito isso, acredito que Aos Companheiros de Estrada não seja uma peça feita para ser admirada apenas pelo olhar técnico. Embora seja lindamente executada, sinto que ela exige outra disponibilidade. Um coração aberto. Uma disposição rara de se identificar com o percurso, com os vazios, com a humanidade simples que ela oferece. 

Talvez alguém procurando virtuosismo, impacto ou genialidades gritadas não encontre nela o que procura. Mas quem entrar disposto a sentir, e não apenas analisar, provavelmente saia diferente. Como aqueles viajantes silenciosos que dividem a estrada com a gente sem fazer muito barulho, mas que, de alguma forma, mudam completamente o percurso.


Saí pensando que viver tem muito disso que Guimarães Rosa tentou, desde sempre, nos ensinar: caminhar sem endurecer o olhar. 

Segui viagem com mais leveza, mesmo que, sem dúvidas, carregasse alguma coisa nova na bagagem — ainda que não seja possível explicar exatamente o quê.



Sinopse

Fruto de uma imersão sócio-eco-literária no sertão mineiro, o espetáculo nasce do encontro entre artistas e território, inspirando-se na obra de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e nas travessias reais vividas nesse espaço onde brotam algumas das principais águas do país.


Em cena, teatro, música, dança e artes visuais se entrelaçam para construir uma narrativa que atravessa memória, território e urgência ambiental, refletindo sobre o presente e os caminhos que estamos escolhendo seguir.



Ficha Técnica


DIREÇÃO, DESIGN, OFICINEIRO, GESTÃO E SOCIAL MEDIA: VICTOR LUCAS OLIVER

ATRIZ, OFICINEIRA E COORDENAÇÃO DE PROJETO: CAMILA FERRÃO

ASS DE DIREÇÃO E DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: NATALIA BRESOLIN

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: ANDERSON PRESSENDO

FIGURINO: JOSI BRESOLIN

ILUSTRAÇÃO, ATOR E SONOPLASTA: YURI CAMPAGNARO

ATOR E SONOPLASTA: LUCIANO SANGREMAN

ILUMINAÇÃO: JULIANE ROSA

TRADUÇÃO EM LIBRAS: NATHAN SALES

PREPARAÇÃO VOCAL: EDITH DE CAMARGO

ASSESSORIA DE IMPRENSA: BRUNA BAZZO

REGISTRO DE FOTOS: VITOR DIAS

REGISTRO DE VÍDEOS: EDUARDO RAMOS


Serviço

Espetáculo: Aos Companheiros de Estrada

Local: Miniauditório - Auditório Glauco Flores de Sá Brito (Rua Amintas de Barros, s/n)

Temporada: 29 de abril a 10 de maio de 2026 (quarta a sábado às 20h e domingo às 16h e 19h)

Sessões com Libras: 08 e 09/05 (20h) | 10/05 (16h e 19h)

Bate-papo após sessão: 29/04 e 07/05


Ações  formativas


Oficina Corpo-Escrita: Criação de Dramaturgia,

com Camila Ferrão e Victor Lucas Oliver

Dia: 14/05 às 19h

Oficina Criação de Solos a partir do Teatro Gestual

com Victor Lucas Oliver

Dia: 15/05 às 19h 

Local: Toca Atelier (Av. Vicente Machado, 198)

Vagas: 12 por oficina

Classificação: 18 anos

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