
Eu me lembrarei - Uma leitura sensível sobre Lembra-te de mim
- No Teatro Curitiba
- há 2 horas
- 3 min de leitura
Por Gabi Coutinho
Há um momento difícil de localizar no tempo, em que a gente percebe que carrega mais do que viveu. Como se dentro do corpo houvesse camadas de histórias que não são exatamente suas, compostas por memórias herdadas, violências que ecoam, silêncios que insistem em permanecer.
Não chegam como lembranças claras, mas como sensações: um peso sem nome, uma inquietação que não se explica. É como caminhar entre dois pontos, entre o que se vê à frente e aquilo que insiste em puxar o olhar para baixo. Um deslocamento constante entre horizonte e chão, entre seguir e lembrar.
Nesse percurso, o chão deixa de ser apoio e passa a ser uma pergunta. O olhar desce quase sem autorização, como se algo ali chamasse, como se houvesse vestígios impossíveis de ignorar. Um preto denso, quase líquido, que não encobre, mas revela; como se cada passo tocasse algo que permanece mesmo depois de tudo.
Há uma sensação de atravessar um campo depois da batalha - não aquele do estrondo, mas o da permanência, onde o silêncio pesa tanto quanto os ruídos. Um ar de petróleo, não só na cor, mas na espessura, na ideia de algo que se infiltra, que adere, que escurece tudo ao redor e impede qualquer tentativa de neutralidade, porém com alguma potência que nos convence a achar poético… provocantemente bonito.

Nesse espaço onde o caminhar já não é inocente, as vozes não surgem para preencher. Elas chegam como quem já sabe que será ouvida, despertando algo como um reconhecimento inevitável que emociona e nos transporta.
Somos guiados à frase que se instala: “somos todos Horácio”, não como afirmação mas como destino. Porque ser aquele que permanece é também carregar o peso de lembrar, de narrar, sem permitir que o que aconteceu se dissolva no esquecimento. Entendemos exatamente quando se diz que ser ator é um ato político, transformando presença em outra dimensão e fazendo de cada gesto um posicionamento carregado de responsabilidade.
A música invade sem pedir passagem, encontra espaço no corpo e o ocupa por inteiro, como se soubesse exatamente onde tocar. Há nela uma dor reconhecível, que não precisa ser explicada para ser sentida, e talvez por isso emocione com tanta precisão. As lágrimas vêm quase como resposta automática, não por fragilidade, mas por encontro. E, ainda assim, há uma delicadeza que sustenta tudo, uma espécie de fio invisível que impede a queda completa, lembrando que mesmo no peso existe alguma forma de continuidade.
Então, quando tudo parece prestes a se tornar insuportável, o riso surge, inesperado e necessário. Não como fuga, mas como fenda.
Um riso que não nega a tragédia, mas a amplia, revelando o absurdo contido na dor e, ao mesmo tempo, a humanidade que insiste em sobreviver a ela. Há algo profundamente familiar nisso, como se a própria estrutura do trágico precisasse dessa ruptura para se sustentar, como se lembrar das comédias fosse também uma maneira de não sucumbir às ruínas.
O que se constrói ali não se fecha, não se entrega de imediato. É uma experiência que se desenha aos poucos, com rigor e sensibilidade, em que cada elemento parece dialogar com o outro para formar algo maior, que não se explica, mas se sente. Há beleza, mas não uma beleza confortável: uma beleza que provoca, que desloca.
Quando tudo termina, o que permanece não é uma resposta, mas um eco persistente, como se a memória, uma vez acionada, se recusasse a voltar ao silêncio.
Certamente, eu me lembrarei.

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Entre corpos, vozes e imagens poéticas que constroem uma narrativa de riso, dor e emoção, Gabi Coutinho lembra das provocações de Lembra-te de Mim - espetáculo do Grupo Obragem que traz uma variação de Hamlet para colocar a memória como epicentro de reflexões sobre intoleráveis acontecimentos da atualidade.
Foto de capa: Fábio Heiler
Lembra-te de Mim
09 de abril a 03 de maio de 2026
Espaço Obragem / Curitiba - PR
"PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO A CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA E DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, com incentivo das empresas Uninter e Consórcio Servopa.
Ficha técnica:
Dramaturgia e direção: Olga Nenevê
Elenco: Ane Adade/Eduardo Giacomini/Fabiana Ferreira/ Gabriel Gorosito/Guenia Lemos/Regina Bastos/Taciane
Vieira
Direção musical: Ariel Rodrigues
Preparação vocal: Luciana Melamed
Figurino: Eduardo Giacomini
Cenário: Guenia Lemos
lluminação: Beto Bruel
Operação de iluminação: Érica Mityko
Designer gráfico: Alessandra Nenevê
Captação de recursos: Carol Roehrig
Assessoria de imprensa: Adriane Perin
Fotos: Fábio Heiler
Teaser: Lídia Ueta
Assistente de produção: Leandro Oliveira
Produção: Grupo Obragem de Teatro


