Entre a poesia inútil e o inútil virando poesia: uma reflexão borocoxô inspirada em Céu da Língua
- No Teatro Curitiba
- há 2 dias
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Curitiba, 24 de junho de 2026 - Por Gabi Coutinho
Acordei moribunda. Com dor de garganta e, infelizmente, não por efeito de um costelão. Não era shemomechama. Era só uma garganta inflamada mesmo.
Fiquei um pouco frustrada com a falta de poesia da explicação. Pensando em como era borocoxô sentir que me faltavam palavras exatamente numa situação como aquela. Porque seria muito mais interessante imaginar que um desconforto qualquer vinha acompanhado de significados simbólicos, desses que carregam uma história inteira dentro deles.
Uma palavra, depois outra. E assim por diante.
Foi assim que comecei o dia. Entre me sentir inútil e carregada de “pensamentos bugiganga” sem sentido algum.
Passei a manhã carregando termos sem serventia prática alguma, que não me ajudariam a pagar boletos, responder e-mails ou organizar a parafernália com a qual eu tinha que lidar. Não resolveriam conflitos diplomáticos nem consertariam a gambiarra que eu havia feito na noite anterior.
Mas algo na minha mente seguia faceiro, serelepe, recusando a escafeder-se da memória. Um ímpeto de encontrar importância na inutilidade diante dos aplicativos para economizar tempo, dos hobbies monetizados com obrigação de resultado e até mesmo nas conversas e textos que sempre precisavam levar a algum lugar.
“E as coisas que não servem para nada? Quem é que cuida delas?”
Meu estado imprestável naquela manhã me fez ter uma empatia considerável pelos termos sem serventia. Quem guarda uma palavra só porque ela é bonita? Quem conserva um melindre, um desaforo, um despautério, sem a obrigação de transformá-los em algo rentável?
Num piscar de olhos me senti eu como ela: uma poesia existindo no território do aparentemente inútil. Enquanto me deleitava nessa distração entre tropeços e desastres tal qual Gregório me lembrara de Caetano, as tarefas surgiam e ressurgiam tentando me tirar daquele instante que eu não fazia ideia de quanto tempo ia durar.
"Com sua licença, podem me dar um minutinho?"
Sorri. Vi ali mais um caso dessa desimportância bonita naquilo que se diz. Meia hora, um dia inteiro, mais que isso talvez.
Encontrei um encantamento raro pulando da falta de significado a um excesso de significância.
Deitada ali, escangalhada, desempoeirei a vitrola e coloquei Trêm das Onze pra tocar… sabendo que naquele dia não tinha urgência que me fizesse ir embora. Uma dramaturgia genial, um riso alto na plateia, uma presença de palco admirável, uma peça para viver e reviver no topo da minha lista de favoritices.
Mais uma vez entre quinquilharias da língua e traquitanas verbais, percebi que os badulaques das miudezas são as grandezas que me dão prazer de existir. E talvez até a eternidade, e mais um dia, sejam elas que me deem forças para levantar.
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Gabi Coutinho assistiu a Céu da Língua no dia 23 de junho de 2026, no Teatro Guaíra.
A peça figura entre suas obras favoritas pela forma brilhante como transforma a linguagem em espetáculo, encontrando poesia, humor e profundidade nas pequenas inutilidades das palavras. A construção dramatúrgica de Gregório Duvivier, aliada à sua presença em cena, cria uma experiência que permanece ecoando muito depois do fim da apresentação, celebrando a beleza das coisas que - embora sirvam - não precisam servir para nada além de nos encantar.
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FICHA TÉCNICA
Texto: Gregorio Duvivier e Luciana Paes
Interpretação: Gregorio Duvivier
Direção: Luciana Paes
Direção musical e execução da trilha: Pedro Aune
Assistente de direção e projeções: Theodora Duvivier
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenografia: Dina Salem Levy
Assistente de cenografia: Alice Cruz
Figurinos: Elisa Faulhaber e Brunella Provvidente
Visagismo: Vanessa Andrea
Designer gráfico publicação: Estúdio M-CAU – Maria Cau Levy e Ana David
Identidade visual divulgação: Laercio Lopo
Comunicação: Raquel Murano
Marketing digital: Renato Passos
Assessoria de Comunicação: Pedro Neves
Fotos: Demian Jacob, Priscila Prade, Joana Calejo Pires e Raquel Pelicano
Diretor técnico: Lelê Siqueira
Diretor de palco: Reynaldo Thomaz
Técnico de som: Dugg Mont
Assistente de palco: Daniela Mattos
Gerente de Projetos: Andréia Porto
Assistente de produção: João Byington de Faria
Produção executiva: Lucas Lentini
Direção de produção: Clarissa Rockenbach e Fernando Padilha
Produção: Pad Rok


