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Sobre percursos, paisagens e desenhos - Fragmentos reflexivos a partir do espetáculo Deriva, da Súbita Companhia

  • No Teatro Curitiba
  • 8 de jun.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 11 de jun.

por Soraya Martins (crítica convidada)


O termo deriva possui significados múltiplos que se tensionam e se complementam. De um lado, remete à ideia de deslocamento sem rumo; de outro, à experiência do acaso, da abertura ao imprevisto e da suspensão de controle, tornando-se um gesto crítico diante das estruturas normativas. Me interesso, mais de perto, por este sentido último, simbólico. É dele que parto para fazer deste texto fragmentos críticos-criativos sobre a deriva poética-política do espetáculo Deriva, da Súbita Companhia.

 

Sinopse: deriva nos convida a percorrer um trajeto no centro histórico de uma cidade. dentro da paisagem, tomamos o tempo para observar, perceber os detalhes e reconhecer as narrativas que se sobrepõem. somos atravessados pela cidade enquanto caminhamos sobre o asfalto que cobre os rios que passam debaixo dos nossos pés. nas encruzilhadas, o encontro entre sankofas e azulejos portugueses, lixo e árvores centenárias, coisas e gentes. refletidos na vitrine das lojas nos percebemos inseridos nesse lugar que nunca para.                    

                uma tempestade se anuncia.



 

 

“Derivar” por uma cidade não é apenas andar: é ler criticamente o espaço urbano com o corpo, percebendo como a cidade organiza fluxos, distribui acessos e define quais vidas importam. A deriva expõe a cidade como um campo de disputas simbólicas, sociais e políticas.

 

A sinopse nos convida a percorrer o centro histórico de uma cidade (qualquer). No entanto, Curitiba se mostra nos corpos-cidade que Flávia Imirene, Nathan Gabriel, Pablito Kucarz, Patrícia Cipriano e Dafne Viola performam, dando a ver camadas de subjetividades que forjam a capital dos pinheiros.

 

A deriva, da Súbita, não propõe deslocamento literal pelas ruas da cidade, mas uma textualização do espaço. Um contar a cidade por meio de uma geografia palavreada e desenhada no e pelos corpos em performance. Esses corpos confrontam a imagem hegemônica de Curitiba, nacionalmente celebrada como “cidade modelo”, associada ao planejamento urbano, à limpeza, à eficiência do transporte coletivo e à herança de imigrantes europeus. Esses corpos apresentam uma deriva crítica que tenta fissurar o discurso oficial que privilegia cartões-postais, parques bem cuidados e uma narrativa de progresso civilizatório: um discurso-imagem não neutro, que seleciona o que pode ser lembrado e o que pode ser esquecido.

 

Cidades Invisíveis. Ao derivar tentando não obedecer aos mapas do marketing urbano, os atores-performers colocam em crise a cidade idealizada e evidencia uma Curitiba mais real, marcada por exclusões, apagamentos e contradições: a negação da presença negra; a periferia, simbolizada pelo bairro Boqueirão, como espaço de contenção e esquecimento, onde a urbanização aparece como precariedade; e os rios cimentados, enterrados vivos para não interromper a lógica da ordem e do progresso.

 

Como seria adensar mais radicalmente nas contradições da cidade para além da crítica ao status quo? Como fabular uma cidade? Como seria redesenhar Curitiba, esteticamente, a partir dos desejos e incompletudes, paixões e rasuras, lugares de falha e subjetividades? Como desviar o olhar de perspectivas marcadas pelas categorias de raça e classe e de território para ler as coisas no mundo?

 

O espetáculo sinaliza para uma Curitiba como experiência viva ao levar para o palco cenas que funcionam como estratégia de existência. A cena do churrasquinho, com cerveja gelada, conversa fiada jogada fora, música e afetividade entre os atores-performers aponta para a necessidade de mantermos a capacidade de sentir prazer e experimentar o comum: uma forma de preservar histórias, afetos e identidades que o planejamento urbano tentar silenciar. Aqui, há a busca por narrar a cidade a partir do código sensorial e afetivo.

 

A obra As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, constrói, sob a forma de relatos imaginários de cidades narradas, uma reflexão sobre as contradições da vida urbana moderna. Longe de ser apenas um exercício de fantasia, o livro apresenta críticas contundentes às formas como as cidades são organizadas, vividas e significadas, revelando tensões entre memória e esquecimento, desejo e consumo, ordem e caos, visibilidade e invisibilidade.

O geógrafo Milton Santos propõe a ideia do uso humano do espaço urbano, centrado na solidariedade e na cidadania, que escapa à lógica do mercado. É nesse sentido que o afeto se torna central. O vínculo com o bairro, a rua, a praça, o ponto de ônibus, o comércio local e as redes de vizinhança constituem uma forma de apropriação afetiva do espaço, que sustenta identidades e sentidos de pertencimento.

O diálogo entre Santos e Calvino nos convida a repensar a cidade como projeto coletivo, prenhe de possibilidades de resistências e reinvenções.

 

O espetáculo Deriva quer adentrar, com total consciência das incompletudes, nas reinvenções passíveis e possíveis de serem elaboradas para traduzir (trair, no melhor sentido, já que todo tradutor é um traidor) uma cidade. Se quer como gesto crítico de reapropriação do espaço urbano para contar, cada vez mais, histórias e memórias; perspectivar sankofas e azulejos português; e dizer, ainda, aquilo que não foi dito.

 

Se, no sentido literal, a deriva é falta de rumo, no sentido simbólico ela é escolha consciente de se perder. Uma prática insurgente que aceita o desconforto de enxergar uma cidade fragmentada, desigual e construída sobre ausências forçadas. Deriva faz desse desconforto experiência teatral que anuncia uma tempestade.


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Soraya Martins é artista-docente, crítica de teatros e curadora independente. Autora do livro Teatralidades-Aquilombamento : várias formas de pensar-ser-estar em cena e no mundo(Editora Javali, 2023). Artista-docente, crítica de teatros e curadora independente. Curou o Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo 2025 e o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte – FIT-BH 2018 e 2024. Pós-doutora em Literatura, Artes e Mídias (UFMG).  Professora do curso de Licenciatura em Teatro da Faculdade de Artes do Paraná FAP/UNESPAR.


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FICHA TÉCNICA DE DERIVA


Direção artística: Maíra Lour

Dramaturgia: Pablito Kucarz e Maíra Lour

Direção de movimento: Juliana Adur

Elenco: Dafne Viola, Flavia Imirene, Nathan Gabriel, Pablito Kucarz e Patricia Cipriano

Direção de produção: Gilmar Kaminski

Produção executiva: Dânatha Siqueira

Assistência de direção e contrarregragem: Anna Wantuch

Orientação dramatúrgica: Carla Kinzo

Interlocução artística: Iván Haidar, Giovana Soar e Sol Faganello

Trilha sonora original e operação de som: Álvaro Antonio

Iluminação e operação de luz: Lucri Reggiani

Cenografia: Gabrielle Windmuller

Figurino: Isbella Brasileiro

Colaboração em voz: Julia Kluber

Realização: Súbita Companhia de Teatro e Flutua Produções

 

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