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Há coisas que não cabem mais no silêncio

  • No Teatro Curitiba
  • 28 de abr.
  • 2 min de leitura

Por Maduh Cavalli


Escrevo este texto como um convite à reflexão e à construção de um espaço de escuta e apoio.

Trago esse tema porque ele me atravessa há algum tempo e porque, em muitos momentos, o que não é dito também sustenta o problema.


Falar sobre assédio dentro da classe artística de Curitiba não é simples e nem confortável, mas é necessário.

Ao longo dos anos, relatos, conversas de bastidores e experiências compartilhadas têm apontado para uma realidade que ainda precisa ser encarada com mais responsabilidade: situações de assédio, constrangimento, abuso e relações de poder desequilibradas seguem presentes em diferentes espaços da cena cultural.


Mais do que a existência desses casos, chama atenção o silêncio que frequentemente os acompanha.

Existe uma tensão entre o discurso público, que se posiciona contra a violência e a opressão, e as práticas cotidianas, que por vezes evitam o enfrentamento quando envolvem pessoas influentes ou com reconhecimento consolidado.

Essa distância entre discurso e prática fragiliza a confiança coletiva e pode gerar ambientes de insegurança e isolamento. É importante lembrar que o assédio não está vinculado à trajetória, ao prestígio ou ao tempo de carreira, mas às condutas. E é sobre elas que precisamos olhar.


Também é fundamental reconhecer que existem limites, jurídicos, emocionais e profissionais, quando se trata de exposição. Nem toda pessoa se sente segura ou pronta para formalizar uma denúncia, e isso envolve medos legítimos, como retaliações, julgamentos ou a própria complexidade dos processos formais.


Ainda assim, isso não deve significar silêncio permanente, nem naturalização dessas situações.


Talvez a pergunta que fique seja: como podemos, enquanto comunidade, criar espaços mais seguros e coerentes com os valores que defendemos? Como fortalecer uma cultura de escuta, responsabilidade e cuidado mútuo?


Enfrentar o assédio não se resume à responsabilização individual, mas passa também pela construção de ambientes mais transparentes, pela definição de limites claros e pela existência de redes de acolhimento e apoio.


A classe artística, historicamente associada à expressão, à sensibilidade e à crítica social, tem também a oportunidade, e a responsabilidade, de olhar para dentro com a mesma honestidade que direciona ao mundo.


Ser rede é um caminho possível.

Rede de escuta.

Rede de proteção.

Rede de responsabilidade.


Romper o silêncio não é atacar trajetórias.

É cuidar de pessoas.

É preservar dignidades.

É fortalecer a ética nos espaços que construímos juntos.


Meu respeito e solidariedade a todas as pessoas que já passaram por essas situações, às que puderam falar, às que ainda estão encontrando caminhos, e às que seguem buscando segurança para existir e trabalhar com segurança e sem medo.



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