Quantos quilômetros cabem em 2 metros quadrados?
- No Teatro Curitiba
- 28 de fev.
- 2 min de leitura
Por Gabi Coutinho
Como pode uma das peças mais minimalistas que eu já assisti ter sido também uma das mais “gigantes”? A Menina e a Árvore, produção da Dobra Teatro que veio à Curitiba pelo edital da Caixa Cultural, me impactou fortemente por sua grandiosidade. E isso acontecer com 4 atores em uma plataforma de 2m2, com toda a sonoplastia feita em cena e nenhum recurso adicional de cenário, fez a experiência se tornar ainda mais especial.
Todo esse contexto me emocionou ao pensar no quanto ser artista pode te transformar numa verdadeira imensidão, que vai de contar a histórias a ser a história em si, muitas vezes sem dizer uma única palavra.
Além de uma dramaturgia extremamente tocante, a direção da peça também assinada por Matheus Lima é perspicaz em suas escolhas. Com o corpo, as expressões e a energia da cena, podemos visualizar lugares, jornadas e até mesmo efeitos especiais. Destaque para uma cena de “guerra de caquis” que me encantou e demorou pra me lembrar de que eu não estava vendo algo com diversos recursos audiovisuais inclusive, uma vez que os caquis, a câmera lenta e todo o cenário envolvente da narrativa podiam facilmente ser vistos pela plateia mesmo sem existirem materialmente.

A Menina e a Árvore me fez lembrar porque faço e amo Teatro, e entender a grandiosidade da mente humana, especialmente como artista, mas também como plateia. Recentemente escrevi um texto que tocava na importância do Teatro infantil para todas as idades, que ressaltava o Teatro como um espaço seguro para sentir. E esse espetáculo certamente reforça esse ponto em profundidade, resgatando a criança interior em cada adulto. A peça direciona a mente para o momento presente, ao mesmo tempo em que o imaginário nos transporta para longe e nos guia a uma verdadeira viagem pelo espaço e pelo tempo. Como público, lembrei de quando “caminhar com os dedos” poderia mesmo ser andar por uma longa estrada, um sopro poderia ser ventania e o abaixar ou aumentar da luz ser verdadeiramente o nascer e o por do sol.
O brilhantismo se completa pela sensibilidade visível em todo o elenco (na temporada em Curitiba: Juliana Brisson, Helena Marques, Reinaldo Dutra e Matheus Lima), que sabem exatamente como estabelecer conexão e leveza. A peça não busca causar incômodo e é muito mais uma peça para sorrir do que para chorar, mas deixei escapar algumas (várias) lágrimas em muitos momentos, simplesmente por perceber o amor e carinho da equipe pelo projeto.

Saí do teatro com a sensação de que carregava uma floresta inteira dentro do peito; e ela cabia ali, entre uma respiração e outra. Como se alguém tivesse aberto uma fresta invisível no meu imaginário e me lembrado que ele continua funcionando perfeitamente (obrigada). Fui embora com vontade de brincar mais sério, de levar menos peso, de acreditar outra vez que o mundo pode ser reinventado com quase nada: um gesto, um olhar, um corpo disponível. A Menina e a Árvore me devolveu uma delicadeza que às vezes a pressa tenta roubar.
E, no fim, talvez seja isso: descobrir que ser gigante é questão de ponto de vista, e dois metros quadrados podem ser infinitos quando a gente decide habitá-los com presença.


