Uma vida inteira brincando: Crítica da peça “Histórias de teatro e circo - Três gerações de arte brincante”, Carroça de Mamulengos
- No Teatro Curitiba
- 4 de abr.
- 3 min de leitura
Por Adelaide, escrita por Maria Nardy
Era uma vez uma menina que vai ao teatro e vê uma atriz. Ela agora quer ser atriz também. Anos depois, outra menina vai ao teatro e vê essa nova atriz e também quer ser uma delas.
Qual a matéria-prima do teatro?
Essa arte só existe, há milênios, porque um dia uma atriz olhou no olho de outra atriz. E assim o teatro continua com seus fazedores sendo passado de olhar em olhar.
O avô, que guia a história como um narrador, aos 70 anos, olha no olho da plateia, assim como uma de suas netas, com não mais que 5 anos, se posiciona ao centro do palco com uma inteligência cênica firme e agradece.
Assistimos à história dos bonecos de Mamulengo, nosso patrimônio imaterial, entrelaçada com a história da família Gomide-França e o teatro se apresenta ali em estado puro de encantamento. Pela poesia em corpo e cor, a ludicidade dos fantoches, a musicalidade preenchida, a narrativa bem feita, mas, principalmente pelo estado de graça em seu mais alto nível de sofisticação.
A arte popular, a brincadeira e a criança são tantas vezes chamadas de simples, como quem quer dizer de algo simplório.
Quero afirmar a complexidade da encenação Histórias de teatro e circo - Três gerações de arte brincante, da companhia Carroça de Mamulengos, do Cariri, que nos apresenta muito além do que magia colorida que já seria, por si só, presenciar 50 anos de trajetória. Mas o que temos ali é mais que isso: é uma família nos contando sobre ela e sobre nós. O ciclo da vida e do teatro, que ali no palco não tem separação, e por isso mesmo, é tão arrebatador presenciar.
O que essa família faz é desvelar a história deles mesmos, enquanto é generoso com a plateia ao nos apresentar os bastidores da fantasia: nos mostra o manipular de um fantoche, retirar, diante de nós, as roupas e estruturas de uma boneca, de uma onça ou da cabeça do caçador. O que escuto disso é: ofício. Da menor criança em cena, ao avô contador, são fazedores de teatro e de gente.
As crianças são as protagonistas não pela graciosidade inerente, mas pela consciência que tão novas já demonstram de que brincadeira é coisa séria.
O que eles perpetuam ali é mais do que a tradição dos bonecos e da cultura popular, é olhar para nossa gente e cultura.
Apesar da defesa que a peça traz pela tradição, ela nos apresenta muito futuro.
É como se pudéssemos ver palpavelmente toda uma vida, passado, presente e futuro, ao som de uma sanfona nas mãos da Maria e uma boneca (a sensacional Miota) nos ombros da Ana, guardada na caixa com beijinho na bochecha e lágrimas, pois agora seguirá seu caminho adiante com uma atriz ainda mais nova. Futuro esse, que vem da tradição, mas se aperfeiçoa: as quatro menininhas palhaças, o discurso do nosso tempo e a inteligência e seriedade de quem sabe que carrega mais do que uma peça, mas a voz de um território e do tempo.
A Carroça de Mamulengos nos lembra que o teatro só existe porque sua matéria-prima é gente e a tradição de um ator que viu outro ator. Uma filha que viu uma mãe que viu um pai. Teatro no mais puro afeto no alto das pernas de pau aos aplausos em cena aberta. Sem dúvidas, é uma grande honra para o Festival de Curitiba esse espetáculo.
Ao bebê carregado no colo da avó ao longo da peça que chorou nos aplausos finais, eu te saúdo: seja bem-vindo ao mundo e ao teatro.
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Ficha Técnica:
Direção e Roteiro: Maria Gomide; Direção Musical: Beto Lemos; Figurinos e Adereços: Isabel Gomide; Bonecos: Carlos Gomide e Antônio Gomide; Cenário: Carroça de Mamulengos; Elenco: Primeira Geração - Carlos Gomide, Schirley França, Segunda Geração - Maria Gomide, Francisco Gomide, João Gomide, Pedro Gomide, Matheus Gomide, Isabel Gomide, Idalia Campos de Lucena, Gabriela Nunes, Luiza Silvino, Terceira Geração - Iara Gomide, Ana Gomide, Helena Gomide, Naiá Gomide, Liana Gomide, Amari Gomide; Músico: Beto Lemos; Técnico de Luz: João Gioia; Técnico de Som: Daniel Blackout.
Apresentação em abril de 2026, no Teatro Bom Jesus, Festival de Curitiba


