
De Curitiba para São Paulo: como O Fantasma de Friedrich reforça a força do teatro musical paranaense
- No Teatro Curitiba
- 15 de jul.
- 8 min de leitura
Por No Teatro Curitiba
Quando um espetáculo curitibano conquista uma temporada em São Paulo, o feito ultrapassa a circulação de uma única produção. Ele evidencia a capacidade de artistas, companhias e profissionais locais de desenvolverem projetos autorais capazes de dialogar com públicos de diferentes regiões do país.
É exatamente esse movimento que acontece com O Fantasma de Friedrich – Uma Pop Ópera Punk. Depois de estrear em Curitiba, conquistar público e crítica e consolidar-se como uma das produções autorais de maior destaque da nova geração do teatro musical brasileiro, o espetáculo da companhia Bife Seco inicia em setembro sua maior temporada até agora, ocupando dois teatros públicos da capital paulista com patrocínio da Petrobras.

Mais do que uma nova etapa na trajetória da montagem, a temporada representa também um marco para o teatro musical produzido em Curitiba. Em um cenário historicamente concentrado no eixo Rio–São Paulo, ver uma obra concebida integralmente na capital paranaense alcançar essa projeção ajuda a ampliar o olhar sobre a produção artística da cidade e demonstra que grandes musicais autorais também estão sendo desenvolvidos fora dos principais centros da indústria.
Fundada em 2010, a Bife Seco construiu sua trajetória apostando em narrativas originais e, ao longo dos últimos anos, vem acumulando reconhecimento nacional por seus espetáculos, podcasts e projetos de formação. A seleção da companhia pela Petrobras Cultural entre mais de oito mil projetos inscritos reforça esse momento de expansão, que agora ganha um novo capítulo com a chegada de O Fantasma de Friedrich aos palcos paulistanos.
Para entender o impacto desse momento para a companhia e para a cena curitibana, o No Teatro Curitiba conversou com o diretor e dramaturgo Dimis, diretor criativo da Bife Seco e um dos criadores do espetáculo.

[No Teatro Curitiba]
Dimis, durante muito tempo, os grandes musicais brasileiros estiveram concentrados no eixo Rio–São Paulo. O que representa, para você, levar um musical criado em Curitiba para uma temporada desse porte na capital paulista?
[Dimis]
Teatro musical AUTORAL brasileiro. Esse é o mote que o Fantasma de Friedrich e eu compartilhamos nessa chegada a São Paulo. E eu vejo essa temporada de estreia menos como uma conquista individual da Bife e mais como combustível para um movimento local de valorização da criação original e de novas formas de pensar brasilidade.
Por muito tempo, só era visto o que era produzido no eixo Rio-São Paulo. E nada tira a importância dessas duas cidades na consolidação dos musicais no país. Mas eu acho que a massificação das redes sociais nos abriu para outras vivências de Brasil, outros sotaques e a vontade de desbravar histórias diferentes.
E Curitiba sempre foi celeiro para artistas inventivos, talvez porque a criação aqui era sem medo e sem a pressão de dar certo. A Bife Seco nasceu justamente deste espírito destemido, influenciada por uma geração de grupos da cidade que ganharam os palcos nacionais, como a Delírio, a Sutil Companhia e a Cia Brasileira.
Por isso, ver um espetáculo criado em Curitiba ocupar os teatros de São Paulo (inclusive como aconteceu com o Ave Lola recentemente) é uma emoção porque mostra que nós não estamos fazendo cópias. Nós estamos levando uma pesquisa continuada e uma linguagem autêntica em um momento em que as pessoas tem fome de novidade.
[No Teatro Curitiba]
Você acredita que essa circulação ajuda a mudar a percepção sobre a produção de teatro musical feita em Curitiba e no Paraná? De que forma?
[Dimis]
A temporada do Fantasma com certeza abre essa conversa, porque existe um preconceito tácito. Ainda parece que o teatro musical produzido fora do eixo precisa provar que é bom o suficiente. Eu gostaria que a percepção passasse a ser outra: o que as diferentes regiões do país têm a acrescentar à linguagem?
Curitiba possui uma identidade muito própria. Existe um humor mais ácido nas conversas, uma melancolia poética nas pessoas, um expressionismo sombrio pelas ruas... E isso aparece naturalmente nas obras feitas aqui. Mas assim como Felipe Hirsh e Márcio Abreu abriram caminho para o teatro de prosa, a Bife está fazendo a sua parte com o musical. Só que é preciso já pensar no que vem na sequência. E eu trabalho para que não seja apenas a gente fazendo isso.
Atores e atrizes excelentes nós temos. Precisamos agora de mais criadoras e criadores. Quanto mais espetáculos viajarem, mais o público vai perceber que existe um teatro musical autoral brasileiro acontecendo em muitos lugares ao mesmo tempo. E isso fortalece todo mundo.
[No Teatro Curitiba]
A Bife Seco sempre investiu em obras autorais, mesmo em um mercado fortemente marcado por adaptações e títulos internacionais. Quais os desafios e oportunidades nesse contexto de criar algo novo? Como vocês sentem a abertura e aceitação do público nesse quesito?
[Dimis]
Criar uma obra original é uma escolha bastante irresponsável. Quando você monta um título conhecido, parte da conversa e da venda já está feita. O público sabe do que se trata. Existe uma memória afetiva, uma marca.
Quando você cria uma obra autoral, precisa convencer as pessoas de que vale a pena conhecer algo que nunca existiu. E umas das coisas mais difíceis (e caras) que existem é convencer alguém a ouvir sua história. Ao mesmo tempo, essa é justamente essa a beleza da coisa.
A Bife faz isso há 15 anos. Eu e o Enzo Veiga (Diretor Musical e Compositor) temos uma paixão por construir universos novos. O Sávio e o Jac (Produtores) compartilham dessa visão, assim como o Léo, o Amorim, o Vini, o Ryan, cada um em sua área. O Fantasma não adapta um livro, um filme ou uma biografia. Ele coloca Nietzsche dentro de um hospital psiquiátrico ao lado de um urso de pelúcia neurótico com música punk enérgica. Isso provavelmente não passaria numa reunião de marketing (e eu não culparia as pessoas por isso). Mas quando você se arrisca em algo que é seu e dá certo, não há sensação mais poderosa.
E a resposta do público tem sido emocionante. Parece que as pessoas entendem os nossos desafios e compram as nossas lutas, porque é importante para elas também. Além disso, nós temos a sorte de ter a Petrobras com a gente (e de o setor de marketing deles buscar justamente essa energia e inovação).
[No Teatro Curitiba]
O Fantasma de Friedrich nasceu em Curitiba e foi acompanhado de perto pelo público desde as sessões-teste até a estreia. Como é ver um espetáculo tão identificado com a cidade ganhar novos públicos e novos contextos? Há algo que mude junto com essa mudança de cidade?
[Dimis]
Toda peça muda quando muda de lugar. De um teatro para o outro isso já é perceptível. De uma região para outra isso fica gritante. Nós sentimos isso recentemente com o Humanismo Selvagem, outro espetáculo do repertório, que circulou pelo Nordeste e Centro-Oeste.
Em cada região foi uma peça diferente. E isso comprova que o teatro é bom quando é vivo. A obra continua sendo exatamente a mesma, mas as risadas aparecem em lugares diferentes, os silêncios têm outro peso, algumas referências ganham novas camadas.
No caso do Fantasma, Curitiba ajudou a construir a obra em vários níveis. O público participou desse processo desde a gênese, apontando caminhos, reagindo, crescendo junto com a dramaturgia.
Agora chegou a hora de descobrir como São Paulo vai trocar com o espetáculo. Eu não faço ideia do que vai ser. Mas estou ansioso. E torço pela sobrevivência de todos.

[No Teatro Curitiba]
O espetáculo aborda temas como saúde mental, amadurecimento e pertencimento, mas faz isso por meio do humor, da fantasia e da estética punk. Como vocês encontraram o equilíbrio entre tratar questões tão delicadas com sensibilidade, sem abrir mão da irreverência que marca a identidade da obra?
[Dimis]
Eu desconfio profundamente da ideia de que assunto sério precisa ser tratado de forma sisuda. O humor sempre foi uma das maneiras mais inteligentes que a humanidade encontrou para sobreviver.
É claro que o momento pede uma atenção maior com o tipo de humor que se leva aos grandes públicos. É preciso ter pesquisa, fazer testes, ousar também, vez ou outra errar e depois corrigir. Mas é um bom desafio estar sempre ligado nisso, tentando entender os limites e os horizontes dessa discussão.
Quando uma adolescente divide o palco com o fantasma de Nietzsche e um urso de pelúcia neurótico, nós não estamos diminuindo a dor dela. Estamos criando uma metáfora capaz de torná-la visível. A fantasia dark do espetáculo permite falar do que seria insuportável de maneira direta ou literal.
E o punk, para mim, nunca foi apenas um estilo musical. É uma postura. É a coragem de questionar aquilo que parece obrigatório. Isso combina muito com a adolescência, combina muito com Nietzsche e combina muito com o humor.
No fundo, o espetáculo fala sobre encontrar uma forma própria de existir. Todo o resto (os fantasmas, o rock, o hospital, o humor) são maneiras de tornar essa conversa menos dura e mais sensível.
[No Teatro Curitiba]
Olhando para o futuro, o que você espera que a trajetória de O Fantasma de Friedrich, junto a outras ações que vocês tem feito, represente não apenas para a Bife Seco, mas para outros artistas e companhias que produzem teatro musical em Curitiba?
[Dimis]
Os meus esforços são para que, num futuro breve, novos criadores e núcleos criativos floresçam e apresentem suas obras autorais na cidade.
Que novos musicais com histórias originais sejam escritos e lançados.
Que o Fantasma e os nossos próximos espetáculos pavimentem o acesso dessas criações aos palcos do Brasil.
Que a trajetória da Bife Seco inspire ousadia, coragem e a irresponsabilidade necessária para inventar novas obras.
Que os artistas acreditem que a cultura brasileira não precisa importar identidade para fazer teatro musical de excelência.
Que o sucesso desse projeto que comemora os 15 anos da Bife faça outras grandes empresas se interessarem em patrocinar a arte paranaense, assim a Petrobras ousou fazer.
E que se entenda que (como eu sempre apliquei na minha carreira) muitas vezes pra dar certo é preciso dar um passo maior que a perna, botar o carro na frente dos bois e contar com o ovo no cu da galinha.
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Os ingressos para a temporada de O Fantasma de Friedrich – Uma Pop Ópera Punk em São Paulo já estão à venda pela Sympla (incluir link) e nas bilheterias dos teatros.
Teatro Popular João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino)
3 a 13 de setembro
Quinta a sábado, às 20h
Domingo, às 19h
Teatro Popular Arthur Azevedo (Avenida Paes de Barros, 955 – Alto da Mooca)
17 de setembro a 3 de outubro
Quinta a sábado, às 20h
Domingo, às 19h
Classificação: 10 anos | Duração: 140 minutos (com intervalo) | Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).
Nos vemos No Teatro. E em São Paulo dessa vez, que tal?
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SINOPSE - O FANTASMA DE FRIEDRICH
Alana é uma jovem melancólica atormentada pelo desaparecimento da irmã, levada contra a vontade para o Hospital das Graças, uma instituição de saúde mental que acredita na felicidade a qualquer preço. Determinada a descobrir o que aconteceu, ela força a própria internação e mergulha em um universo de tratamentos exaustivos, adolescentes insurgentes e uma intimidadora equipe de enfermagem.
Mas sua investigação toma um rumo inesperado quando ela encontra um misterioso livro capaz de libertar um espírito perturbador, ou melhor, um espírito perturbado: o fantasma de Friedrich Nietzsche, um filósofo rabugento, com crises existenciais, fortes enxaquecas e ideias perigosamente rebeldes sobre liberdade.
Ao lado de seu fiel e neurótico urso de pelúcia, Adolfo, Alana embarca em uma jornada que mistura filosofia, fantasia, humor e punk rock para enfrentar os traumas do passado e descobrir o que realmente significa encontrar o próprio caminho.
Criado pela premiada dupla Dimis e Enzo Veiga, O Fantasma de Friedrich é um musical original brasileiro com 15 artistas em cena e 17 canções originais executadas ao vivo. Em uma combinação improvável entre Alice no País das Maravilhas, Um Estranho no Ninho e a filosofia de Nietzsche, o espetáculo aborda com sensibilidade temas como saúde mental, amadurecimento, pertencimento e a beleza de encontrar o seu lugar no mundo.
SOBRE A BIFE SECO
A Bife nasceu para criar universos únicos e narrativas inesquecíveis em múltiplas plataformas, capazes de despertar emoções, promover debates e transportar o público para lugares novos.
Fundada em 2010, a companhia comemora 15 anos de trajetória marcada pela criação de espetáculos, musicais, livros, filmes, séries e podcasts. Ao longo desse período, realizou cerca de 40 produções, conquistou aproximadamente 30 prêmios e indicações nacionais e alcançou mais de 800 mil espectadores em diferentes regiões do Brasil.
Entre seus principais trabalhos estão os espetáculos Humanismo Selvagem, Temporada de Caça, os musicais Terrível Incrível Aventura e O Fantasma de Friedrich, além dos podcasts País do Futuro e Selvageria, que somam mais de 500 mil ouvintes.
Reconhecida pela criação de obras autorais que combinam excelência artística, inovação e identidade brasileira, a companhia foi selecionada pela Petrobras entre mais de oito mil projetos de todo o país na categoria Ícones da Cultura Brasileira, desenvolvendo uma ampla programação comemorativa de seus 15 anos ao longo de 2026 e 2027.


