
Nenhuma Lágrima: um depoimento literário de quem, de alguma forma, se coloca em julgamento
- No Teatro Curitiba
- 24 de mai.
- 5 min de leitura
Por Gabi Coutinho
Alerta de gatilho: este texto aborda temas relacionados a abuso, violência psicológica, relacionamentos tóxicos e violência sexual.
Foi estranho assistir Prima Facie sabendo que tantas pessoas saíam dali chorando e reparar que quase me frustrei tentando entender porque eu não era uma delas.
Eu também esperava isso de mim.
Existia uma expectativa silenciosa de que, em algum momento, uma lágrima descesse e me aliviasse daquilo tudo. Afinal, é uma peça que desmonta certezas, sufoca aos poucos e coloca a mão em feridas que muita gente passa a vida tentando esconder.
Mas eu não chorei.
E foi justamente pensando sobre isso que entendi o tamanho do estrago.
Enquanto muita gente ao meu redor soluçava, eu estava parada. Imóvel. Como se meu corpo tivesse escolhido endurecer para sobreviver ao que reconhecia no palco.
No lugar das lágrimas, surgiu uma náusea difícil de explicar.
Perguntas antigas começaram a reaparecer junto de lembranças mal enterradas, de situações que passei anos transformando em esquecimento, neutralidade ou culpa.
A surpresa inicial foi sentir raiva da Tessa num primeiro momento. Ou estranhamento. Sentir que me soava quase insuportável a forma como ela dominava as palavras, desmontava depoimentos e transformava dor em inconsistência jurídica.
Em algum lugar muito íntimo, eu olhava para aquela advogada de defesa e sentia como se ela invalidasse sentimentos que eu nunca consegui nomear completamente. Como se representasse todas as vezes em que precisei racionalizar a própria dor antes mesmo de admitir que ela existia.
Só que a revolta vinha também de outro lugar, percebendo que ela só conseguiu enxergar certas violências quando passou a senti-las na própria pele.
Isso me fez pensar se alguém realmente aprende alguma coisa apenas ouvindo histórias.
Se nós, na posição confortável de espectadores, conseguimos compreender o tamanho de certas dores ou apenas assistimos a elas como quem observa uma tragédia distante, segura, organizada pela dramaturgia (seja no palco ou na vida real).
Porque Tessa conhecia relatos, estatísticas e vítimas. Trabalhava todos os dias cercada por narrativas interrompidas.
Ainda assim, algo só mudou quando o horror atravessou o próprio corpo.
E é impossível não se perguntar o quanto isso também fala sobre nós.
Precisamos do extremo para finalmente enxergar?
A humanidade só começa quando a violência encontra endereço dentro da própria casa?
É necessário sentir na pele o desumano para conseguir se tornar mais humano?
Era um soco no estômago atrás do outro.
A peça dói porque não fala de exceções. Fala de uma realidade que atravessa silenciosamente a vida de mulheres o tempo inteiro.
O dado de que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu algum tipo de violência física ou sexual é tão absurdo que quase perde o impacto quando lido friamente. Mas ele ganha rosto quando a memória começa a abrir portas que estavam trancadas há anos, e como mulher, a gente pensa se não somos nós mesmas essa “uma em cada três”.
Vamos da negação a um reconhecimento que aproxima diferente a partir dali.
É impossível não pensar em quantas vezes diminuímos desconfortos e procuramos justificativas plausíveis para situações que, lá dentro, sempre nos rasgaram o peito.
Falando em jogar para baixo do tapete, eu quase não escrevi sobre essa peça.
Já li textos brilhantes sobre ela, que analisam sua estrutura, atuação, potência política e inteligência dramatúrgica.
Porém admito que acabei escrevendo para tentar digerir melhor. Tanto o que vi no palco, quanto o que camuflei em mim.
Durante a peça, me peguei pensando em quantas vezes tive relações sem vontade alguma mas nunca vi problema porque foi com meu, na época, namorado. Namorado não est*pr@ namorada, est*pr@? Vi que a pergunta pairava em algum lugar entre descrença e formação afetiva, enquanto a culpa acabava mudando de endereço.
“Eu não fui firme o suficiente.”
“Eu tinha deixado as coisas acontecerem.”
“Eu estava exagerando ao olhar para trás.”
“Era uma forma diferente de amar.”
Lembrei dos relacionamentos em que fui me tornando pequena sem perceber. Das amizades que abandonei porque alguém transformou ciúme em prova de amor. Das vezes em que me fizeram acreditar que eu não conseguiria nada melhor — nem trabalho, nem amor, nem vida — e eu acreditei. Porque existe uma violência muito específica em convencer alguém da própria incapacidade.
É abuso? É toxicidade? Que nome isso tem?
A peça inteira parece perguntar isso o tempo todo. Que nome damos às coisas quando elas não deixam hematomas visíveis? Quando ninguém encosta uma arma na sua cabeça, mas ainda assim você vai desaparecendo aos poucos?
Lembrei ainda de uma vez em que tentei pedir uma medida protetiva contra um homem que me aterrorizava. Um homem que fazia ameaças suficientes para eu não conseguir dormir em paz.
Eu fui até a delegacia porque queria impedir que algo acontecesse, e me perguntaram:
“Ele já fez alguma coisa com você?”
Eu respondi:
“Ainda não. É exatamente pra não fazer que eu estou aqui.”
Disseram que não era assim que o sistema funcionava. Que, no máximo, poderiam registrar como advertência.
Saí de lá entendendo que, para o perigo ser reconhecido, às vezes ele precisa primeiro virar tragédia.
Assistir Prima Facie foi reencontrar tudo isso sentada no escuro de uma plateia. Coisas que meu corpo armazenou em algum lugar tão fundo que já não acessava conscientemente.
Desde muito cedo, me convenci que certas dores não eram grandes o suficiente para serem colocadas para fora. Não pareciam graves o bastante. Não pareciam violência de verdade.
Então fui engolindo tudo em silêncio até perder a dimensão. Tenho certeza que isso acontece dessa forma com 1 em cada 3 mulheres também.
Não chorar, no fim, foi apenas a continuação disso. Não uma ausência de impacto, mas o reflexo de alguém que passou tanto tempo abafando a própria experiência que já não sabe mais como permitir que ela transborde.
Terminei a peça sem lágrimas, mas transformando esse sentimento em palavras consegui chorar. Enquanto a arte gerava mais arte, senti espaço para finalmente respirar.
Com esse texto, revisito o movimento de um grito, uma denúncia que o sistema talvez não acolha. Que talvez não aconteça nada. Mas mesmo diante da impressão de que talvez essas palavras não mudem nada concretamente, reforço que “não dar em nada” é muito relativo.
Talvez alguns recomeços nasçam assim: tanto da lágrima que escorreu quanto da que não caiu. Não da resolução, mas da coragem de finalmente deixar existir aquilo que passou tanto tempo escondido.
O movimento já muda a paisagem. A palavra já rompe o silêncio. O fluxo já impede que a dor permaneça intacta dentro da gente.
Agora, Prima Facie, eu choro por nós. Por dor e angústia mas, de alguma forma, de alívio também.
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Gabi Coutinho assistiu Prima Facie em 23 de maio de 2026, no Teatro Positivo. Apesar da acústica difícil em diversos momentos, marcada pelo eco e pela dimensão do espaço, a força da atuação e a verdade cênica atravessam qualquer barreira técnica. No fim, porém, esta não é uma crítica sobre estrutura, som ou encenação. É um texto sobre tudo aquilo que o espetáculo mostra que existe dentro da gente, desde muito antes, até tempos depois.
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Serviço
Data: 23 de maio (sábado)
Horário: 20h
Local: Teatro Positivo
Classificação: indicada para maiores de 14 anos.
Idealização: Edson Fieschi e Luciano Borges
Realização: Borges & Fieschi Produções e Antes do Nome
Produção local: Polarize Entretenimento
Apoio: Hotel Johnscher, Jun Sakamoto, Continental, Avenida Paulista, Honda Niponsul e Yara Grigera
Instagram: @primafaciebrasil e pelo @polarize.br.
Ficha Técnica
Débora Falabella em “Prima Facie”
Texto: Suzie Miller. Direção: Yara de Novaes. Tradução: Alexandre Tenório. Cenário: André Cortez. Figurino: Fabio Namatame. Iluminação: Wagner Antonio. Trilha Sonora: Morris. Consultoria jurídica: Maria Luiza Gomes e Mateus Monteiro. Direção de Produção: Catarina Milani. Assistentes de Direção: Ivy Souza e Renan Ferreira. Idealização: Edson Fieschi e Luciano Borges. Realização: Borges & Fieschi Produções e Antes do Nome.


