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Porque eu NÃO assisti (um) ensaio sobre a cegueira

  • No Teatro Curitiba
  • 6 de abr.
  • 3 min de leitura

Por Gabi Coutinho


Cada vez que alguém me pergunta se eu assisti “(um) Ensaio sobre a Cegueira” no 34° Festival de Curitiba, uma dorzinha me corrói por dentro.

Automaticamente me dizem: “não conseguiu ingresso, né?”, mas eu sorrio sem jeito porque não foi essa a questão. 


Apesar da grande disputa, havia até um certo orgulho silencioso em dizer: eu consegui. Afirmava com convicção que estava pronta para assistir a montagem do Grupo Galpão. Um acontecimento.

Uma peça comentada, aguardada, quase um ponto de encontro coletivo.


Mas, no meio do caminho entre o ingresso e a plateia, algo me fez parar.

Foi na coletiva de imprensa que ouvi a informação da peça ter aproximadamente duas horas e trinta minutos. E não foi exatamente o tempo que me assustou, foi o corpo. Meu corpo, mais uma vez, lembrando que assistir a uma peça não é apenas um ato intelectual. É físico. É espacial. É concreto.


Comecei a sentir os sintomas de um quase pânico e sentei “meio torta” para imaginar: duas horas e meia comprimida numa cadeira estreita, tentando negociar milimetricamente o espaço com o braço da poltrona, sentindo o desconforto crescer, a circulação apertar, o foco escorrer. Não seria uma experiência de fruição; seria resistência.


Assim é quando a resposta a quem me pergunta se eu perdi o espetáculo por estar esgotado simplesmente sai da minha boca numa mistura de tristeza, dor e revolta: eu não deixei de assistir por falta de ingresso. Eu deixei de assistir por falta de espaço.


Tentei através de alguns meios buscar um ajuste, uma troca, uma solução improvisada. Não havia cadeira disponível. Não havia empatia. Não havia a alternativa possível diante do meu caso que, mais uma vez, era visivelmente julgado ou tratado como escolha, como banalidade.


Como vocês já sabem, a peça eu não assisti. Mas no que guia a narrativa do romance, sei que a cegueira se espalha e, aos poucos, revela o quanto a sociedade não está preparada para acolher o outro. O caos não vem apenas da falta de visão, mas da incapacidade de organizar coletivamente o cuidado. Cada um luta por seu espaço, por sua sobrevivência, por sua pequena vantagem. 


E foi exatamente assim que eu me senti. Mais uma vez.


Pensei nisso quando lembrei das vezes em que precisei pedir que alguém trocasse de lugar comigo. Quando precisei me indispor, justificar meu corpo, explicar algo que deveria ser óbvio.


Por um instante pensei em não escrever sobre isso de novo. Tive medo de soar repetitiva. Me envergonhei me sentindo boba e implicante. Mas refletindo um pouco sobre o contexto, percebi o quanto certas questões continuam sendo ignoradas como se não existissem. Como se estivéssemos todos tateando no escuro, fingindo não perceber quem fica para trás.


E isso não é só sobre mim. Não é só sobre o corpo gordo. É sobre corpos diversos. Sobre quem precisa de mais espaço para as pernas, sobre quem sente dor ao permanecer sentado por muito tempo, sobre pessoas com mobilidade reduzida.

Sobre qualquer espectador que, por uma questão física, não consegue permanecer ali com conforto mínimo.


Decidi bater na mesma tecla na esperança que isso seja levado em conta em reformas que estão por vir. Continuar lutando pra que a desorganização coletiva não revele um egoísmo cotidiano, e que esse tema não se torne - ou siga sendo - uma cegueira confortável.


Relembrar isso não é repetição. É insistência. É tentativa de fazer ver.  Porque, às vezes, o que falta não é luz.

É só atenção ao olhar e disposição para enxergar.


______*

Foto: Carol Sarturi
Foto: Carol Sarturi

IMPORTANTE: a peça aconteceu no Teatro Guairinha, mas esse texto não é uma crítica ao espaço (não diretamente ou não somente), tão pouco ao Festival de Curitiba e menos ainda à peça (quanto a isso é na verdade um elogio sincero e um agradecimento pela reflexão mesmo de quem não assistiu). É uma reflexão e uma urgência de uma mulher gorda que segue lutando pelo seu espaço. Segue lutando para ser vista.


A alta procura ocupou rapidamente inclusive os assentos para obesos, que não podemos generalizar mas normalmente são poucos e, muitas vezes, ocupados por pessoas que não precisam desse recurso.




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